GFN25: O Direito de Respirar Outra História
Três dias em Varsóvia durante o GFN25, onde a ciência da nicotina desfez seus espantalhos — e a desinformação foi chamada pelo nome
Há conferências — mas há também encontros que se assemelham a verdadeiras assembleias de náufragos. Sobreviventes da maré alta da desinformação e da corrente turva dos discursos oficiais que ancoram sua existência em evidências esquecidas, em dados soterrados pela ideologia, em vozes que o institucionalismo insiste em calar. Muitos retornam a Varsóvia, ano após ano, não para serem convencidos, mas para preservar sua integridade num mundo obstinado a fragmentá-los.
Este é o caso do Global Forum on Nicotine — ou simplesmente GFN — uma uma conferência anual que, desde 2014, se firmou como o epicentro de uma batalha subterrânea entre ciência, política e percepção pública. Um território simbólico onde se tenta resgatar o sentido da palavra “verdade” em meio a um ruído narrativo que transforma erro em cautela e censura em prudência.
Em 2025, o evento celebrou sua 12.ª edição adotando o lema Challenging Perceptions: Effective Communication for Tobacco Harm Reduction. Mais do que um título, a expressão ressoou como uma senha; um convite à insurgência racional num terreno onde a linguagem se converte em armamento e cada palavra ergue trincheiras.
Em Varsóvia, ao longo de três intensos dias de junho, não se tratou apenas de um fórum político-científico, mas de um exercício coletivo para dar nome ao que permanece oculto. Entre pausas para o café e confrontos políticos, uma pergunta desconfortável: o que acontece quando a verdade é desautorizada por decreto?
Aqueles que retornam ao lugar onde foram ouvidos pela primeira vez
O Warsaw President Hotel (antigo Marriott), um edifício cosmopolita sem ostentação, acolhe o evento ano após ano. Contudo, por trás de seus tapetes neutros e corredores climatizados, o que ali acontece está longe de ser indiferente. Há um pulsar humano implacável; e essa necessidade premente de conexão infiltra-se em cada pausa para o café, em cada fila do elevador, em cada troca de crachá.
No GFN, comunicar não é apenas informar — é disputar sentidos. Nesse terreno minado por dogmas, meias-verdades e interesses disfarçados de saúde pública, desafiar percepções demanda mais do que dados: requer coragem. Coragem para nomear o silêncio, para narrar o invisível e para reivindicar o direito à nuance em tempos de polarização extrema.
Ali, entre auditórios e corredores, ressoa quase uma devoção por uma ideia ao mesmo tempo simples e revolucionária: a redução de danos prova sua eficácia — e deve ser comunicada com absoluta honestidade.
Não se trata de fé, mas de um descobrimento sustentado por décadas de evidência empírica, experiências acumuladas e vidas transformadas. Os números falam por si: taxas de cessação mais elevadas, quedas constantes nos indicadores de doenças associadas ao fumo e casos concretos de sucesso em países como a Suécia.
Mas o que realmente comove — mais do que qualquer gráfico — são os rostos que dão vida às estatísticas. Histórias de quem abandonou o cigarro graças ao acesso a produtos de menor risco. De quem viu a saúde deixar de ser uma ruína anunciada para tornar-se uma possibilidade de permanência.
Esse espaço é promovido pela Global Forum on Nicotine Ltd, organização que fomenta o debate internacional em saúde pública a partir de uma perspectiva radicalmente inclusiva. Seu propósito vai além do científico: é também político e ético. Reúne vozes diversas — especialistas, consumidores, parlamentares, ativistas e jornalistas — para questionar o postulado inflexível de que a abstinência absoluta é a única resposta aceitável ao tabagismo. O GFN sustenta o contrário: reduzir o risco, ainda que sem eliminá-lo por completo, é prioridade de saúde pública — e um direito humano fundamental.
Ali, não se celebra a perfeição, mas o progresso. Talvez seja por isso que o fórum, ano após ano, se converta num espaço onde a esperança transcende a mera palavra e se faz prática compartilhada — e onde o conhecimento assume sua expressão política mais autêntica.
O hotel onde a fumaça não entra, mas as histórias transbordam
Um dos painéis mais instigantes da conferência propôs revisitar os 20 anos da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (FCTC), o tratado global liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e frequentemente celebrado como um marco histórico na luta contra o tabagismo.
Aquilo que poderia ter se restringido a uma sessão técnica — adornada por jargão diplomático e estatísticas protocolares — rapidamente assumiu o tom de denúncia e urgência ética.
A conferência foi inaugurada por Jeannie Cameron, uma das vozes mais influentes no debate sobre política, comércio e regulação do tabaco. Reconhecida por seu olhar crítico à atuação da FCTC, Cameron não poupou franqueza em sua exposição, desvelando contradições e desafios que permanecem silenciados.
Com frieza quase cirúrgica, Cameron desnudou o entusiasmo acrítico que ainda cerca o tratado, sustentando que, apesar dos avanços políticos e jurídicos promovidos pela FCTC, sua missão primordial — reduzir de fato as taxas de tabagismo e as mortes associadas ao uso de produtos combustíveis — permanece frustrada.
Para a palestrante, esse insucesso decorre da recusa sistemática em incorporar, de modo pleno e coerente, a estratégia de redução de danos — prevista no próprio texto da Convenção, mas preterida por inúmeros governos e pelo órgão gestor do acordo. Ela qualificou a postura da OMS como “veementemente anti-redução de danos” e criticou a orientação “excessivamente clínica” da FCTC, que na prática se traduz numa política binária e desumanizante: “pare ou morra” — sem margem para soluções mais pragmáticas, acessíveis e compassivas.
Suas palavras pairaram no ar como acusação e lamento. Em vez de abraçar a complexidade dos comportamentos humanos ou reconhecer o promissor papel das tecnologias emergentes, o tratado refugiou-se no conforto da ortodoxia: ou se abandona o cigarro por completo, ou permanece-se condenado. Nesse enquadramento tão estreito, produtos como snus, vaporizadores e sachês de nicotina — comprovadamente menos nocivos que os cigarros tradicionais — têm sido sistematicamente ignorados ou varridos para fora da discussão. Não por ausência de evidência, mas por excesso de moralismo.
E o resultado, segundo Cameron e outros painelistas, é trágico: milhões de vidas que poderiam ter sido salvas ficaram à deriva por um tratado que persiste em não reconhecer a redução de danos como estratégia legítima de saúde pública. Embora a FCTC tenha erguido uma arquitetura diplomática e jurídica robusta, fracassou exatamente onde não podia—na salvação concreta de vidas humanas.
Ao lado de Cameron, Clive Bates — analista de políticas públicas de perspicácia notável e veterano defensor da regulação baseada em evidências — expôs sua crítica com a precisão de quem domina os meandros do poder institucional. Frontal e cortante, ironizou ao afirmar:
“Se você tem um princípio fundamental, e um caso como o do snus o contradiz, então o princípio precisa mudar. É como a relatividade geral — se uma observação a contradiz, acabou.”
A FCTC nasceu como um plano de cooperação — uma ponte erguida entre nações em prol da saúde. Mas, em muitos contextos, converteu-se em seu oposto: tornou-se um muro. Um muro erguido contra a ciência, contra os consumidores, contra a inovação.
E não se trata apenas de metáfora, mas de diagnóstico: um sintoma estrutural das contradições que perpassam a arquitetura da saúde pública global.
O que deveria ser um pacto de proteção e aprendizado mútuo converteu-se, com frequência alarmante, num dispositivo de exclusão epistêmica: erguendo muros contra a ciência, ao recusar-se a revisar pressupostos diante de novas evidências; muros contra os consumidores, ao negar agência a quem enfrenta, no dia a dia, escolhas reais entre risco e redução; muros contra a inovação, ao acolher o que foge à ortodoxia não com curiosidade, mas com desconfiança — ou silêncio.
Com incisiva clareza, a crítica de Bates e Cameron escancarou uma fratura moral no debate sobre o tabaco: a ortodoxia da abstinência absoluta ergue-se como doutrina inarredável — ainda que seu preço se meça em vidas perdidas.
Sob essa perspectiva, o fracasso da FCTC deixa de ser mero entrave técnico e revela-se um embate ideológico. Trata-se de uma arquitetura global que, em nome de uma pureza regulatória, rejeitou a imperfeição salvadora da redução de danos. Seu edifício institucional mantém a elegância polida pelo verniz do consenso diplomático, porém demonstra-se cego às fissuras que se alargam em seus alicerces: a exclusão sistemática de consumidores; a recusa em acolher inovações tecnológicas; e a supressão deliberada de evidências que escapam ao dogma abstinencista.
Essa crítica não é mero exercício retórico, mas encontra seu alicerce em dados concretos e em casos que clamam por atenção. O snus sueco — produto oral de tabaco não combustível, consumido há décadas na Escandinávia — ilustra essa realidade. Graças à sua difusão, a Suécia detém uma das menores incidências de câncer de pulmão na Europa. E não se trata de simples correlação, mas de causalidade sustentada por décadas de rigorosos estudos epidemiológicos.
Mesmo assim, o snus continua restrito na maior parte da União Europeia. Por quê? Especialistas presentes no GFN afirmam que não são razões sanitárias, mas políticas. O problema não está no produto, mas em sua incompatibilidade com a narrativa institucional que traça uma fronteira inflexível — e moralista — entre vício e virtude.
Em vez de abrir caminhos para soluções viáveis, o tratado tem reforçado os muros da estagnação. Sob a bandeira de uma saúde pública “purificada”, a FCTC escolheu fechar os olhos à ambiguidade inerente à vida — e é esse desprezo pelo ambivalente que revela sua maior vulnerabilidade.
Para os países de baixa e média renda, essa recusa em considerar alternativas menos nocivas ganha contornos ainda mais dramáticos: trata-se da negação de opções que poderiam salvar milhões de vidas. Tikki Pangestu, — renomado especialista em saúde global e ex-diretor de Pesquisa e Cooperação em Políticas da OMS — evidenciou uma das consequências mais graves, e paradoxalmente silenciadas, dessa postura institucional:
“A OMS mantém uma posição muito forte contra a redução de danos — e isso tem um impacto desproporcional nos países de baixa e média renda.”
Essa denúncia expõe um dos impactos mais assimétricos impostos pela OMS. Pangestu sublinhou que, em contextos de sistemas de saúde frágeis e alta prevalência do tabagismo, a recusa em adotar estratégias de redução de danos configura uma injustiça sanitária estrutural, perpetuando desigualdades no acesso a alternativas mais seguras.
Falando com a autoridade de quem transita pelos bastidores da diplomacia sanitária global, Tikki Pangestu não se limitou a uma observação — esboçou um diagnóstico. Em países cuja capacidade de produzir e decifrar evidências científicas é frágil e muitas vezes subordinada, as diretrizes da OMS operam como comandos silenciosos — não por coerção explícita, mas por meio de uma dependência político-econômica enraizada como raízes invisíveis.
“Os formuladores de políticas nesses países costumam consultar estudos dos EUA ou do Japão — eles precisam de dados locais, e isso é o que mais falta em muitos contextos”, explicou.
Esse vácuo, agravado por uma inércia burocrática difusa, faz com que, se a OMS declara que vapear é tão nocivo quanto fumar, os governos absorvam essa posição sem qualquer questionamento. O que deveria servir apenas como orientação transforma-se em imposição — não por coerção direta, mas pela simples falta de alternativas.
Essa assimetria — tantas vezes oculta sob o verniz do discurso técnico — configura uma verdadeira forma de colonialismo sanitário: um mecanismo pelo qual o saber normativo dos países centrais dita, sem mediação nem escuta, as políticas destinadas aos contextos periféricos.
Pangestu foi adiante em sua crítica, afirmando que essa postura dogmática não apenas persiste, mas se fortalece continuamente:
“A OMS reforçou ainda mais essa posição durante a COP10, e não dá sinais de mudança para a COP11. Enquanto essa posição não mudar, muitos países continuarão apáticos, simplesmente dizendo: seguimos a OMS.”
Essa adesão passiva expõe um paradoxo cruel: justamente nas regiões onde o tabagismo mais mata, as ferramentas mais eficazes para combatê-lo permanecem inacessíveis — não por escassez de evidência, mas por falta de autonomia. E, como Pangestu concluiu, com lucidez temperada por uma ponta de resignação, reverter essa maré não será uma decisão técnica, mas um ato político:
“A única maneira de mudar isso é um ministro da Saúde ligar para o diretor-geral da OMS e dizer: ‘Queremos que esse tema entre na pauta.’”
Nas palavras de Pangestu, a fronteira entre inércia científica e omissão moral tornou-se turva — pois, às vezes, não basta dispor de evidências; é preciso a coragem de ouvi-las.
Em contextos onde a dependência de diretrizes internacionais supera a força da pesquisa local, a influência normativa da OMS age como uma ordem velada. Políticas são reproduzidas mecanicamente ou instaladas como sombras fantasmagórica, sacrificando a autonomia científica em nome de um modelo padronizado, alheio às realidades culturais e sanitárias de cada região.
Não é ciência que se exporta. É doutrina. Um universalismo sanitário que confunde coerência com verdade e padronização com justiça. O resultado é um modelo de saúde pública “tamanho único” — cego às nuances culturais, sociais e econômicas; surdo às soluções pragmáticas que, de fato, poderiam salvar vidas.
O que emergiu daquele painel não foi apenas uma crítica às falhas de um tratado internacional, mas um chamado à reumanização: um apelo para que a saúde pública reencontre sua vocação ética — ouvir, adaptar-se, cuidar. E, acima de tudo, para abandonar a ilusão de uma única saída para o tabagismo, pois, como lembraram os painelistas, a vida não cabe em binarismos.
Quando a ciência precisa vestir armadura
Um dos momentos mais intensos — e, ao mesmo tempo, mais desconfortáveis e reveladores — ocorreu durante a Michael Russell Oration, proferida por Arielle Selya, uma cientista que não apenas pesquisa: ela resiste. Sua trajetória desafia o roteiro oficial. Ela chegou a compartilhar o mesmo receio alarmista em relação aos cigarros eletrônicos até que os próprios dados que coletava revelaram uma história diferente: mais complexa e menos conveniente.
E ela pagou um preço por escutá-los.
Selya afirmou que, hoje, desencoraja-se a ciência a dizer a verdade. Quando surgem resultados que contradizem a narrativa dominante, a reação mais comum não é examiná-los com rigor, mas silenciá-los. Ela relatou ter tido uma proposta de financiamento recusada ao sugerir, de forma neutra e equilibrada, o estudo dos efeitos do uso de cigarros eletrónicos entre jovens. O motivo da recusa? A alegação de que “não seria aconselhável incentivar o uso de e-cigarettes por adolescentes, mesmo sendo estes melhores que os cigarros tradicionais”.
Ditas com serenidade quase clínica, suas frases chegaram ao público como denúncia — e testemunho de quem já sofreu o isolamento académico reservado a quem se recusa a se curvar. O que Selya expunha não era apenas um desequilíbrio na produção científica, mas a erosão ética no próprio ecossistema do conhecimento.
Com clareza inquietante, ela expôs como preferências ideológicas e pressões políticas contaminam os sistemas de fomento à pesquisa. Estudos que enfatizam riscos — ainda que metodologicamente frágeis — recebem financiamento e aplausos; enquanto isso, investigações que apontam benefícios comparativos de produtos de risco reduzido enfrentam suspeitas, cortes orçamentários e, muitas vezes, ostracismo.
A ciência, em muitos casos, tornou-se cúmplice do medo institucional — não por mentiras ativas, mas pelo silêncio e pela omissão onde deveria haver coragem.
Nos corredores — onde crachás ainda não haviam apagado os nomes próprios — as conversas assumiam um tom mais íntimo e, por isso mesmo, mais brutal. Entre uma sessão e outra, começou a circular um sussurro incômodo, capaz de pairar sobre os dias seguintes:
“Somos cientistas tentando salvar vidas — e nos tratam como criminosos.”
Essa frase partiu de um pesquisador que analisa dados sobre a eficácia dos cigarros eletrónicos em comunidades rurais — e que já recebeu ameaças do próprio Ministério da Saúde. Seu “crime”? Publicar resultados que comprovam que a redução de danos funciona — inclusive onde o Estado insiste que ela não deveria funcionar.
Essa tensão entre a ciência que busca salvar vidas e os poderes que a silenciam tornou-se, talvez, o eixo não declarado do fórum. Porque, num mundo em que os fatos são filtrados por ideologias, a verdade requer armadura — e quem a defende, uma coragem quase anacrónica.
Como em toda boa narrativa, encontramos heróis improváveis: cientistas que resistem à cooptação; ativistas que compreendem o peso de cada estatística encarnada na pele. Mas há também mártires: pesquisadores silenciados, estudos enterrados, vozes apagadas antes mesmo de se tornarem incômodas demais.
Talvez nada sintetize melhor a atmosfera do GFN25 do que as palavras finais de Arielle Selya.
Ela encerra o seu discurso com um gesto raro — e poderoso: abre espaço para a escuta do outro, mesmo daquele que discorda. Ao afirmar sua crença na colaboração adversarial, não se limita a defender o diálogo com posições opostas — ela o eleva a um método científico por si só. Planejar um estudo em conjunto com alguém que pensa diferente, acordando de antemão quais critérios cada parte considerará evidência robusta, é devolver à ciência aquilo que tantas vezes se dilui: o compromisso com a verdade, não com a confirmação de crenças.
Mas Arielle não fica apenas na esfera epistemológica. Desce ao terreno concreto para recordar que, em última instância, a ciência impacta vidas reais. É nesse ponto que nasce sua crítica mais humana: enquanto outras áreas do conhecimento já entenderam que nenhuma pesquisa é legítima sem a participação ativa daqueles impactados, o campo da pesquisa em tabaco ainda silencia as próprias pessoas envolvidas. É nesse vazio que ecoa o antigo lema: “Nada sobre nós, sem nós” — um apelo ético que ela retoma com firmeza e com a esperança de que esse atraso seja enfim superado.
Em um momento quase íntimo com a plateia, Arielle convida os ouvintes a partilharem suas histórias. Pois, como ela diz, os fatos — embora indispensáveis — nem sempre bastam. É a emoção que, muitas vezes, rompe barreiras e cria espaço para a mudança. Neste ponto, sua fala assume um caráter de legado: para quem faz ciência, a responsabilidade de exercê-la com excelência; para quem a recebe, o dever de propagá-la com integridade.
Por fim, ela recorre à filosofia de Schopenhauer. A verdade, diz o pensador polaco, passa por três fases: ridículo, hostilidade e, finalmente, aceitação. Com isso, Arielle deixa no ar uma impressão quase histórica: talvez estejamos no limiar da terceira fase, quando o que antes era combatido com veemência começa, lentamente, a tornar-se autoevidente.
Naquela sala, onde o silêncio tinha o peso dos aplausos, suas palavras não foram apenas ouvidas — foram sentidas. Como uma convocação. Ou uma advertência.
No GFN25, essa narrativa subterrânea pulsava pelos corredores e nas pausas para o café como uma hemorragia discreta. O que estava em jogo não era apenas a reputação de uma política sanitária — lenta, porém inescapável —, mas a integridade da ciência como motor civilizatório.
E, no centro de tudo, uma pergunta simples — e brutal: quem está disposto a pagar o preço por dizer o óbvio, quando o óbvio se tornou perigoso?
Contra o medo, um livro
Na primeira noite do fórum, o Dr. Mark Tyndall subiu ao palco com discreção. No dia seguinte, lançaria seu novo livro Vaping Behind the Smoke and Fears em conversa com Harry Shapiro. Ainda assim, já havia algo de litúrgico naquele instante inicial. Um gesto que transcendia a conferência e soava como um rito: discreto, mas profundamente simbólico.
Sua fala foi uma poderosa costura ética entre a trajetória como médico e defensor da redução de danos e uma crítica implacável à forma como a saúde pública — especialmente no campo do controle do tabaco — tem fracassado em incorporar abordagens pautadas na compaixão, na evidência e no pragmatismo.
Infectologista e pesquisador de campo, figura histórica da redução de danos, Tyndall transita com naturalidade entre os corredores da academia e os becos da experiência humana. Talvez por isso seu livro soe menos como tese e mais como um memorial de trincheira. Nele, ele narra a própria passagem de médico de saúde pública a ativista relutante: no contexto atual, sugerir que dispositivos de nicotina possam ser aliados na luta antitabagista é traçar uma linha invisível entre os “respeitáveis” e os “hereges”.
Com base em experiências clínicas apresentadas como breves quadros de vida real, Tyndall extrai e sistematiza lições de uma trajetória dedicada à escuta e ao cuidado. Ele demonstra que, ao longo das décadas, as estratégias de redução de danos (preservativos, seringas limpas, locais seguros para uso de drogas, distribuição controlada de opioides e, mais recentemente, produtos de nicotina menos nocivos) se mostraram eficazes, simples, alicerçadas em evidência robusta, custo-efetivas, escaláveis e, sobretudo, desejadas por quem mais precisa delas.
Ainda assim, o médico canadense evidencia uma contradição brutal: essas intervenções continuam sendo alvo de controvérsia não por falharem em seus objetivos, mas por confrontarem ideologias punitivistas, estigmas enraizados e a apatia institucional. Para ele, há uma resistência persistente em reconhecer que comportamentos de risco fazem parte da condição humana — e que a função ética da medicina não é punir escolhas, mas proteger vidas.
Para Tyndall, o moralismo que sustenta muitas políticas de prevenção primária revela-se incapaz de acolher a complexidade do uso de substâncias e as trajetórias únicas que o motivam. Ele denuncia a estigmatização estrutural de quem consome drogas ou nicotina — e chama a atenção para o fato de que, se esses usuários fossem todos brancos e ricos do Norte Global, as respostas sociais seriam radicalmente distintas.
Sem hesitar, aponta também o viés colonial de bilionários influentes como Michael Bloomberg, cuja intervenção política exporta proibições para o Sul Global — medidas que jamais seriam toleradas nos Estados Unidos ou na Europa.
Além disso, critica a inércia institucionalizada: tanto do sistema de saúde, beneficiado pela perpetuação de doenças crônicas causadas pelo tabaco, quanto das organizações de controle do tabaco, aprisionadas a um modelo abstencionista que se mostra incapaz — ou simplesmente relutante — em questionar suas próprias certezas. Até a indústria do tabaco, segundo ele, parece mais preocupada em regular o ritmo da transição do que em liderar uma transformação de fato.
Por fim, denuncia o paradoxo jurídico que, em países como o Canadá, criminaliza até o ato de informar: afirmar que vapear é menos nocivo do que fumar converte-se, em si, em crime.
Diante desse cenário, Tyndall delineia três frentes de ação urgentes:
Ativismo comunitário, com protagonismo de usuários e de pessoas diretamente afetadas;
Pressão política qualificada, sustentada por evidência científica e reforçada por vozes respeitadas;
Uso estratégico do sistema judiciário para assegurar o direito ao acesso a produtos mais seguros.
Ele encerrou a palestra com uma analogia corajosa à epidemia de HIV: assim como o atraso na disponibilização de antirretrovirais custou milhões de vidas na África, hoje a resistência em facilitar o acesso a alternativas ao cigarro perpetua o mesmo padrão de negligência letal. Para Tyndall, não é mera metáfora: negar produtos de nicotina menos nocivos significa, na prática, condenar pessoas a mortes evitáveis.
Mas seu discurso não se encerrou no auditório. No dia seguinte, durante a entrevista de lançamento com Shapiro, revelou-se também o outro lado de sua trajetória: o preço pessoal de dizer o óbvio.
Ele relatou como, ao defender a redução de danos, tornou-se persona non grata em diversos círculos profissionais. Recordou o boicote sofrido por autoridades de saúde pública de Vancouver no primeiro evento sobre vaping, em 2018, e o desconvite para um debate público com Stanton Glantz, quando o comitê organizador classificou sua presença como “um erro”.
Contou ainda sobre a incompreensão de colegas, a distorção midiática de suas declarações, o apagamento de nuances e o pânico moral que permeia o discurso institucional. Na visão de Tyndall, o maior perigo não está na desinformação, mas na mineração lucrativa do medo. Os verdadeiros beneficiários, insinuou, não são os fabricantes de produtos de nicotina, mas aqueles que transformam o pânico em doutrina de saúde pública.
Em poucas palavras — carregadas de frustração contida, e uma memória longa — Tyndall expôs o cerne do problema: a indústria do medo tornou-se mais lucrativa e mais socialmente aceita do que a própria indústria do tabaco que afirma combater.
Ao final, não houve embate dramático, nem pergunta retórica que dividisse a noite ao meio. Mas, à medida que ele narrava seus anos de defesa pública — o atrito com colegas, o silêncio das instituições, o estreitamento dos espaços que antes o acolhiam — era impossível não imaginar a pergunta não dita que pairava no salão: qual foi o custo pessoal de seguir adiante?
Tyndall não o disse em palavras. Mas, no tom de voz e no ritmo deliberado das frases, era possível perceber a resposta. O custo foi real — medido em convites perdidos, distanciamentos profissionais e nos apagamentos sutis que acompanham o dissenso. Ainda assim, havia algo além do preço pago: uma convicção que transcende a perda e a paz de saber que vidas foram transformadas — que pessoas deixaram de fumar não graças ao sistema, mas porque alguém se recusou a segui-lo.
Essa tensão entre exclusão e propósito condensou uma das verdades emocionais mais profundas do GFN25: no atual cenário da saúde global, dizer a verdade sobre a nicotina não é apenas controverso — é custoso. E, mesmo assim, para quem persiste, permanece um ato ético.
Naquela noite, não se lançou apenas uma postura. Assim como, no dia seguinte, não se lançou apenas um livro. Lançou-se um modelo: a recusa em aceitar prestígio ao custo da omissão — um poderoso lembrete do que é verdadeiramente valioso e de que certos silêncios não protegem — matam.
Ao fim do primeiro dia, a palavra
Quando o sol de Varsóvia se desfaz nas fachadas envidraçadas do espaço de convenções, o GFN25 não termina com aplausos, mas com um tipo de exaustão que não vem do corpo — vem do enfrentamento da verdade nua. A verdade de que comunicar ciência em tempos de histeria moral é como caminhar sobre cacos de vidro; de que desafiar narrativas consolidadas pode custar reputações, financiamentos e convites — e, ainda assim, calar custa mais.
O tema deste ano, “Desafiando Percepções: Comunicação Eficaz para a Redução de Danos do Tabaco”, revelou-se menos slogan e mais diagnóstico. O que se viu não foi um desfile de certezas, mas um esforço coletivo para resgatar a palavra como ponte — e não como trincheira. Falar de sabores, de snus, de direitos humanos e de alternativas mais seguras ao fumo não é — como alguns ainda insinuam — render-se à indústria. É recusar-se a render-se à indiferença.
Nos auditórios, nos corredores, nos cafés improvisados onde os sotaques se misturavam, havia um senso de comunidade palpável — uma comunidade que sabe exatamente o que está em jogo: não apenas estatísticas, mas a possibilidade de uma política pública que escute os vivos antes de contar os mortos.
Porque toda boa ciência é, no fundo, um ato de linguagem — e todo ato de linguagem, quando feito com honestidade, pode salvar.
Assim terminou o primeiro dia: com mais perguntas do que respostas, mas também com mais coragem do que silêncio.
Quando dizer a verdade vira crime
Algumas sessões do GFN25 estavam carregadas de tensão ética e franqueza emocional. Em várias delas, a proposta era discutir o papel da liderança, da comunicação e da autoridade na transformação de políticas públicas. Mas o que emergiu, em meio a depoimentos pessoais, diagnósticos institucionais e denúncias corajosas, foi algo mais profundo: o custo humano, e por vezes legal, de liderar com coragem num campo em que dizer a verdade passou a ser, paradoxalmente, um risco a ser administrado.
A ativista canadense Maria Papaioannoy-Duic deu um testemunho que paralisou a plateia. No Canadá, donos de lojas de vape podem ser processados — e até presos — por informar aos clientes que cigarros eletrônicos são significativamente menos nocivos que os convencionais. Lembre-se que aqui não se trata de uma opinião, mas de uma estimativa baseada em avaliações oficiais do Public Health England. Ainda assim, repetir esse dado em solo canadense pode configurar crime. “É mais fácil comprar um maço de cigarros no Canadá do que um produto criado e aprovado para ajudar você a parar de fumar.”
Maria pode legalmente vender cigarros com imagens de pulmões necrosados estampadas na embalagem — o que talvez apenas dessensibilize o consumidor — mas não pode dizer uma única palavra sobre os potenciais benefícios do vaping. Isso, argumenta, não é política de saúde pública. É censura. E não é fruto de ignorância, mas de decisão institucional.
O cardiologista grego Konstantinos Farsalinos, uma das vozes mais influentes na pesquisa sobre nicotina, falou com a franqueza que lhe é característica. Para ele, o custo da desinformação oficial não é abstrato: é medido em vidas perdidas. E quando cientistas, mesmo conhecendo os dados, optam pelo silêncio, cruzam uma fronteira ética — aquela que separa a prudência da cumplicidade. “Postergar o acesso a produtos mais seguros, em nome de estudos intermináveis, custa vidas” — não é metáfora. É acusação.
O irlandês Garrett McGovern, clínico geral com décadas de atuação em comunidades vulneráveis, ampliou o escopo da discussão. Relatou o caso de uma paciente com DPOC grave, que teve parte do pulmão retirado e ainda assim fumava 30 a 40 cigarros por dia. Quando perguntou ao pneumologista sobre e-cigarettes, ouviu: “são tão prejudiciais quanto fumar”. McGovern não hesitou: “É quase impossível penetrar o senso comum médico com evidência. Popcorn lung, epidemia juvenil, cérebro em desenvolvimento… são os mesmos mitos, reciclados sem crítica.” E foi além, classificando a desinformação como uma verdadeira epidemia institucionalizada: médicos repetem dogmas por ignorância ou inércia, e os mais prejudicados são os pacientes — especialmente os mais vulneráveis.
A portuguesa Adriana Curado, com longa trajetória no campo da redução de danos, foi enfática: o tabaco ainda está “normalizado” entre populações marginalizadas. E, por isso, invisibilizado. Em serviços destinados ao cuidado de usuários de opioides, álcool ou crack, fumar é quase uma concessão — tolerada, mas jamais enfrentada. Essa omissão, advertiu, indo além, custa caro. “Se harm reduction é um movimento que luta contra a proibição, não podemos aceitar o proibicionismo no caso da nicotina. Regular é urgente — para proteger, não punir.” A ausência de produtos seguros e acessíveis, especialmente para populações vulnerabilizadas, é, segundo ela, a maior barreira à mudança cultural. Sem acesso gratuito, sem infraestrutura pública e sem vontade política, o discurso sobre redução de danos acaba se resumindo a retórica vazia.
Jessica Harding diagnosticou uma raiz do problema: a toxicidade do debate. Num ambiente em que se associar-se à redução de danos pode comprometer reputações, a evidência é sacrificada, se torna vítima — e o silêncio, escolhido como estratégia de autopreservação.
Sharifa Ezat Wan Puteh, da Malásia, relatou o clima de medo que impera entre os médicos. Falar do vaping como estratégia de cessação pode acarretar retaliações. “A repressão é tamanha”, afirmou ela, “que muitos de nós atuamos na clandestinidade, inclusive dentro de universidades”.
Já Carolyn Beaumont, da Austrália, compartilhou uma exceção rara: psiquiatras têm encaminhado pacientes à sua clínica por reconhecerem o papel do vape como ferramenta terapêutica — mesmo sem saber exatamente o que prescrever. Um gesto de humildade clínica que, para ela, abre caminho para um novo tipo de diálogo: entre a medicina e a realidade dos pacientes.
Rowan Pike, também da Austrália, lembrou que até as forças de segurança pública são arrastadas por políticas proibicionistas das quais não são partidárias. “Fizemos com que fracassassem”, disse um policial, referindo-se aos encargos de fiscalizar regras incoerentes.
Michael Stoney, diretor da maior prisão da Escócia, relatou um caso paradigmático do sistema prisional escocês. Em 2019, ao proibir o tabaco nas unidades prisionais, o Estado temia rebeliões. A solução foi surpreendentemente eficaz: oferecer vapes gratuitos, junto com terapias de reposição de nicotina. O resultado? Redução de 90% na poluição do ar, queda nas prescrições respiratórias, e nenhum incidente grave.
Não houve caos — houve acolhimento. “A legitimidade das decisões, dentro de uma prisão, não é teórica. Se não forem percebidas como legítimas, as consequências vêm — e vêm rápido.”
Tony Duffin, veterano na reforma de políticas sobre drogas, sintetizou o que talvez tenha sido o ponto de maior consenso do painel: não se trata de falar pelas comunidades afetadas, mas de falar com elas. A coprodução é mais do que uma metodologia: é uma devolução de dignidade.
Entre as várias propostas contundentes que foram discutidas estão as comissões formadas por ex-gestores públicos, capazes de dialogar com legitimidade entre pares; o engajamento de lideranças religiosas, sobretudo durante períodos como o Ramadã; e a inclusão deliberada de usuários e consumidores como membros permanentes nas mesas de decisão — não como exceção, mas como regra. Porque, hoje, o que está sendo julgado não são os produtos, mas a possibilidade de dizer o óbvio sem sofrer punição.
Vidas reais, histórias invisíveis
A ciência da redução de danos é sólida, e o que falta não é evidência — é coragem institucional para reconhecer quem e o que fica fora do quadro.
No painel Who Else Should Be in the Room?, moderado por Martin Cawley, surgiu uma pergunta desconcertante: por que os mais afetados pelo risco continuam excluídos das decisões sobre como reduzi-lo?
“Temos clínicos, pesquisadores, cientistas — mas quem está faltando?”
As histórias que se seguiram não foram relatos de vitimização, mas fragmentos de resistência em um sistema moldado para proteger a ortodoxia de poucos, não a saúde de muitos.
A ausência que mais doeu, no entanto, foi a do princípio mais básico de uma saúde pública democrática: nada sobre nós, sem nós. A exclusão dos usuários — seus corpos, suas vozes, suas escolhas — foi exposta não como acidente, mas como sintoma de um paradigma em colapso, que normaliza a invisibilidade de quem mais deveria ser ouvido. E, em meio a essa constatação amarga, como um afável ponto de ancoragem, ecoou uma frase de Mark Tyndall, vinda de outro momento do fórum:
“Estamos do lado certo da história.”
Esses produtos — se chegarem às mãos de quem mais precisa — podem salvar milhões de vidas. A questão não é mais se funcionam; a questão é quem decide quem merece acesso a eles.
O que atravessou essas sessões não foi apenas a defesa da redução de danos, mas a evidência de que, em certos contextos, defender a ciência tornou-se ato de dissidência. Liderar, aqui, não é repetir consensos: é resistir à sedutora armadilha do silêncio institucional, que promete segurança profissional à custa da verdade. É reconhecer que, no campo da saúde pública, ter voz já é, por si só, ato político — e que, enquanto os mais vulneráveis forem tratados como estatísticas sem rosto, qualquer política seguirá marcada pela omissão.
A ciência pode ingenuamente almejar a neutralidade. Mas sua aplicação — ou sua negação — jamais. Porque negar uma solução não é hesitar, é escolher. E toda escolha tem suas vítimas.
Quando a verdade exige tradução: a guerra das palavras
No segundo dia do GFN, as salas ficaram ainda mais cheias. Não era apenas a densidade dos temas que havia aumentado, mas a gravidade moral do que estava em jogo.
Se o primeiro dia foi dedicado a desmascarar a omissão institucional — os silêncios, os dados arquivados, as portas fechadas à inovação—, o segundo mergulhou na perversidade ativa da desinformação: aquela que não apenas nega a verdade, mas a distorce, ridiculariza, criminaliza. Mentiras capazes de infiltrar manchetes, vestir-se de política pública e se institucionalizar até nas diretrizes que formam médicos e jornalistas — e silenciam futuros.
Não se tratava mais de erros isolados, mas de uma intenção política convertida em pânico público. O discurso oficial, amparado em um suposto consenso científico, parecia cada vez mais um teatro de sombras onde os termos permaneciam familiares, mas seus significados eram esvaziados —ou invertidos. Falar em redução de danos, nesse contexto, era também discutir quem tem o direito de contar a história. E, mais ainda, quem é sistematicamente omitido.
A tensão alcançou um ponto crítico especialmente em torno do papel da mídia e a forma como ela remodela a percepção de risco, amplificando o medo enquanto sufoca a nuance. Como lembrou o jornalista e escritor Jacob Grier, ao avaliar a cobertura do surto de EVALI nos Estados Unidos: “Milhões de mortes por cigarro não viram notícia. Mas algumas dezenas de casos ligados a vapes adulterados [de THC] geram meses de cobertura sensacionalista.”
É dentro dessa assimetria de atenção que se constrói o imaginário coletivo — um mundo em que o verdadeiro perigo não é o cigarro que mata, mas o produto de menor risco que poderia substituí-lo. E no centro dessa distorção, o problema não é apenas semântico. É político. É econômico. É moralmente letal.
Essa constatação — dita com ceticismo contido, quase resignado — condensou o cerne do que o GFN25 se propôs a enfrentar: a batalha pelo futuro da saúde pública não se trava apenas em laboratórios ou comitês técnicos. Ela se dá, sobretudo, no território da linguagem. Porque o que está em disputa não é apenas o que se sabe, mas quem tem o direito de dizer, de ser ouvido e de permanecer como fonte legítima de verdade. Nesse cenário, os dados podem ser ignorados, mas as narrativas, nunca: se os fatos têm vida curta, as narrativas moldam décadas. E é por isso que a redução de danos não enfrenta apenas resistência científica — enfrenta um regime narrativo político-econômico projetado para silenciar dissensos.
O poder da manchete e o silêncio da nuance
O jornalista Jacob Grier, conhecido por sua postura crítica às políticas de controle do tabaco, subiu ao palco com a compostura de quem observa um incêndio de longe — mas ainda sente o calor e reconhece a origem da fumaça. Em sua palestra, intitulada “Redução de Danos do Tabaco e a Mídia: Evidência, Narrativa e Consequências”, ele fez um mergulho cirúrgico na dissonância entre o que se sabe e o que se publica; entre a ciência que documenta e a mídia que dramatiza.
Com exemplos concretos, Grier desmontou o espetáculo midiático: em cidades como Portland, onde cigarros com sabor são proibidos, bebidas alcoólicas com sabor de morango ou produtos de cannabis com nomes de balas infantis seguem liberados.
“Proibir vapes de mentol enquanto glitter vodka está amplamente disponível não tem nada a ver com saúde pública — é hipocrisia regulatória”, afirmou, arrancando uma mistura de risos nervosos e desconforto da plateia.
Mas o ponto mais incisivo veio quando ele falou sobre a erosão da legitimidade cultural da nicotina: cada nova restrição — mesmo sem base sólida — normaliza a próxima, e o que começou como exceção termina como dogma. Cada manchete alarmista pavimenta o caminho para mais uma proibição. E, nesse processo, perde-se não apenas o debate científico, mas também o direito do adulto de escolher.
Grier foi direto: “Adultos conscientes devem ter o direito de decidir o que colocam em seus corpos. E o acesso à forma mais segura de uma substância não pode ser negado enquanto a mais letal continua disponível em cada esquina.” Seu argumento não era um chamado libertário superficial, mas uma visão de liberdade ancorada em maturidade política, autonomia informada por evidências e uma recusa em tratar os cidadãos como menores por padrão.
Em seguida, Harry Shapiro, jornalista veterano, escritor talentoso e uma das vozes mais respeitadas nas políticas sobre drogas e comunicação em saúde pública, respondeu não com alarmismo, mas com uma clareza forjada em quatro décadas de mediação entre ciência, mídia e sociedade. Em vez de demonizar os jornalistas, ele os convidou a ocupar o que chamou de uma “zona desmilitarizada” — um espaço onde a nuance ainda possa sobreviver em uma cultura midiática faminta por extremos.
Shapiro observou que, quando se trata da redução de danos do tabaco, o peso das evidências pende fortemente para um lado. Mesmo assim, as narrativas da mídia frequentemente destacam casos extremos — como o adolescente que começa a usar vape aos 13 anos e não consegue parar — ao mesmo tempo em que ignoram realidades mais amplas. Ele reconheceu o desafio de responder a essas histórias sem parecer indiferente ou sem ceder ao ponto errado. Para ele, é essencial reformular o campo de visão: concentrar-se nos fumantes adultos, sobretudo nos grupos marginalizados cujo sofrimento é contínuo e bem documentado.
Lembrou à audiência que 80% da carga global de morte e doenças causadas pelo tabagismo recai sobre as regiões mais pobres do mundo, e que os grupos mais vulneráveis — pessoas com transtornos mentais, dependência química, povos indígenas, comunidades LGBTQIA+ — precisam de mais opções, mais acesso, mais escuta, mais ferramentas para permanecer vivos. O direito universal à saúde, frisou ele, consagrado na Carta da OMS de 1948, “vale para todos — goste-se ou não de seu estilo de vida”.
Por fim, Shapiro também ressaltou que a redução de danos não deve ser vista como adversária das estratégias tradicionais de controle do tabaco, mas como uma abordagem complementar — que já possui evidência médica suficiente para ser recomendada com responsabilidade por profissionais de saúde.
Em tempos em que a desinformação prolifera, sua mensagem aos comunicadores foi sutil, mas clara e urgente: mudar a narrativa, ampliar o enquadramento e contar as histórias reais antes que alguém as distorça.
Austrália e o mapa invertido da saúde pública
Se Jacob Grier denunciou a captura da narrativa pela mídia, Fiona Patten levou o debate a um passo adiante — mostrando como essa mesma narrativa moldou políticas públicas que, além de ineficazes, têm se revelado cruéis. Conhecida por seu trabalho parlamentar e pelo ativismo em favor de reformas pragmáticas nas políticas sobre drogas e saúde sexual, Patten subiu ao palco sem rodeios:
“A Austrália, que já foi referência em políticas de redução de danos, virou o idiota global da aldeia.”
Não era apenas uma metáfora ácida — era um diagnóstico trágico.
Enquanto o país exibe orgulhoso seu “programa de controle do tabaco líder mundial” nos palcos internacionais, os números contam uma história bem menos heroica: para cada cigarro eletrônico vendido legalmente em farmácias, estima-se que outros 1.700 dispositivos sejam comprados no mercado ilegal. Isso alimenta uma economia paralela fora de qualquer controle de qualidade, tributação ou padrão sanitário. Um verdadeiro presente ao crime organizado — embalado com o selo oficial da saúde pública.
Mas o que Patten — política australiana e defensora histórica das liberdades civis — denunciou com ainda mais urgência foi o clima de intimidação e controle narrativo que cerca o tema. Ela descreveu um cenário em que jornalistas de saúde hesitam em desafiar a versão oficial por medo de retaliações — não apenas do governo, mas de instituições influentes como o Cancer Council. Pesquisadores, alertou ela, veem seus financiamentos ameaçados. Consumidores são sistematicamente excluídos dos debates legislativos, e sua autonomia, esmagada, se esvai sob o peso de uma autoridade burocrática crescente.
Patten desenhou o retrato de uma “proibição virtual” disfarçada de política de saúde pública — um sistema tão contraditório que até as forças policiais, segundo ela, admitem que não funciona mais. Apontou absurdos regulatórios: enquanto bebidas alcoólicas com sabor de doce e cannabis embalada com apelo infantil continuam disponíveis, sachês de nicotina com sabor são proibidos.
Na Austrália, observou, até os poucos produtos com nicotina que ainda podem ser vendidos legalmente em farmácias serão criminalizados a partir de 1º de julho, aprofundando uma distorção de mercado que já alimenta uma indústria ilícita de 13 milhões de dólares por dia — com guerras de território, incêndios criminosos e até mortes. Uma mulher inocente foi assassinada por engano, em um desses conflitos. “Ninguém parece disposto a fazer a conexão entre essa tragédia e a legislação que ajudou a causá-la”, lamentou. Para Patten, isso não é só um fracasso regulatório — é um estudo de caso de como leis proibicionistas geram os danos que afirmam combater.
Por trás de sua crítica, havia uma preocupação ainda mais profunda: o apagamento da agência adulta. Nos debates sobre a proibição de sabores ou alternativas à nicotina, Patten observa que quase ninguém se levanta para defender o direito de escolha de adultos conscientes sobre o que consomem. Em vez disso, as restrições se acumulam, uma após a outra, cada uma tornando a próxima mais fácil de justificar — um efeito catraca que reduz pessoas a pacientes, e depois a problemas.
Sob tudo isso, ela alertou, habita um paternalismo tecnocrático — a suposição de que são os especialistas, e não os cidadãos, que devem decidir quais prazeres são permitidos. Esse, ela argumentou, é o verdadeiro desvio autoritário: não na força do Estado, mas no silenciamento da dissidência.
Enquanto falava, representantes de outros países — como Asa Saligupta, da Tailândia — assentiam com a cabeça em reconhecimento. As reverberações da repressão não se restringem à Austrália; o silêncio que as envolve, porém, é cuidadosamente cultivado, fruto de uma estratégia deliberada de omissão global.
O sabor como ponte: gosto, ciência e escolha
A esta altura do segundo dia, já era evidente que o coração da redução de danos não é apenas científico — é vivencial. Poucos temas ilustram isso com tanta força quanto o debate sobre os sabores. Num contexto em que o discurso oficial ainda romantiza a nicotina exclusivamente como medicamento, falar da dimensão sensorial do abandono do cigarro beira a heresia. Mas no GFN25, essas heresias são bem-vindas.
No painel dedicado aos sabores, moderado por Ian Fearon — consultor com quase duas décadas de atuação em políticas de saúde — a proposta era simples e ousada: retirar os sabores da caricatura moralista e restaurar sua função real — a de ponte. Uma ponte entre um hábito que mata e uma alternativa que pode salvar.
A toxicologista Autumn Bernal apresentou dados que desmontam a narrativa alarmista: mais de 99% da massa do aerossol dos cigarros eletrônicos é composta por propilenoglicol, glicerina vegetal, nicotina e ácidos benignos. Os compostos aromáticos, tão demonizados, estão presentes em quantidades mínimas — e seu potencial tóxico é incomparavelmente menor que os danos já bem documentados da combustão do tabaco.
“Não se trata de negar riscos — trata-se de contextualizá-los. É isso que a avaliação toxicológica faz — e que os alarmistas se recusam a fazer”, afirmou ela.
Mas quem talvez tenha expressado com mais clareza o papel existencial dos sabores foi uma consumidora, ex-fumante: “Depois que parei de fumar, recuperei o paladar. E descobri que o gosto do tabaco era, na verdade, o gosto da morte. Foram os sabores — frutas, mentol, baunilha — que me mostraram que havia outra forma de respirar.”
A diversidade de sabores, argumentou Piotr Kozarewicz, representante da indústria, não é um capricho de marketing — é uma estratégia de inclusão. Quando reguladores limitam as opções a um ou dois sabores “seguros”, eles excluem grupos inteiros de fumantes que poderiam migrar para alternativas, mas não se identificam com o sabor do tabaco. A isso, Autumn acrescentou uma provocação central: “Estigmatizar o prazer sensorial no processo de parar de fumar é desumanizar o sujeito.”
A sessão deixou uma mensagem nítida: os sabores importam — não no sentido moralista que muitas políticas sugerem, mas como ferramentas funcionais. Não são armadilhas para crianças. São instrumentos para adultos. São escolhas. E, acima de tudo, são a prova de que parar de fumar não precisa parecer um castigo para ser eficaz.
Dogma e Dissonância: o impasse moral da saúde global
Era inevitável. Em algum momento, a corrente subterrânea de críticas que havia atravessado tantas sessões anteriores acabaria vindo à tona com toda força. Esse momento chegou durante o painel liderado por Clive Bates, que reuniu nomes como Riccardo Polosa, Roberto Sussman, Thomas Nahde, Summer Hanna e diversas vozes da audiência. O título era direto: “Avaliando a ciência da OMS sobre redução de danos.” O que se seguiu, porém, foi mais do que uma avaliação técnica — foi um chamado por responsabilização institucional.
Clive Bates — ex-diretor da ASH (Action on Smoking and Health) no Reino Unido e um dos estrategistas mais respeitados em política de saúde pública — abriu a discussão com a clareza incômoda de quem já esteve dentro do sistema... e escolheu sair.
“O que a OMS pratica hoje não é precaução — é obstinação.” Segundo Bates, a organização se recusa sistematicamente a dialogar com evidências sólidas sobre os benefícios dos produtos de risco reduzido, optando por narrativas fechadas centradas na abstinência total — mesmo quando essa postura contradiz seus próprios dados epidemiológicos globais.
O médico e pesquisador italiano Riccardo Polosa foi ainda mais incisivo:
“O que a OMS está fazendo com a ciência é negligência clínica. Existe um único objetivo, na minha opinião: criar uma ciência própria que sustente a narrativa abstencionista. Mas isso tem consequências terríveis para milhões de fumantes que poderiam mudar para produtos muito menos nocivos.”
Polosa denunciou o que chamou de uma “omissão tática” por parte da organização — citando estudos seletivamente, excluindo evidências positivas sobre vapes e snus, e repetindo frases genéricas como “inseguros” ou “ineficazes” sem oferecer dados comparativos concretos.
O físico mexicano Roberto Sussman reforçou a crítica com um argumento ousado e devastador:
“A OMS afirma combater a Big Tobacco, mas permanece em silêncio diante da maior empresa de tabaco do mundo — a estatal chinesa. Essa é a verdadeira Big Tobacco.” Para Sussman, a “narrativa de guerra” imposta pelo Artigo 5.3 da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco — que afirma haver um conflito irreconciliável entre saúde pública e qualquer produto ligado à indústria — tornou-se um dogma paralisante. Um obstáculo que bloqueia o avanço científico e tecnológico em nome de uma pureza moral fabricada.
Summer Hanna, trazendo a perspectiva da indústria, lembrou que, quando a FCTC foi redigida, a própria OMS previu o papel que a inovação tecnológica poderia desempenhar na transformação da vida dos fumantes. A redução de danos, disse ela, foi concebida como o terceiro pilar do controle global do tabaco — ao lado da prevenção e da cessação — e essa visão está registrada no próprio texto do tratado. No entanto, ao longo das últimas duas décadas, o espírito de curiosidade científica e abertura teria se desgastado.
Hanna também criticou o uso distorcido das classificações da IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), que avaliam perigos potenciais, e não riscos reais em contextos cotidianos. Aplicada sem senso crítico, essa lógica poderia fazer parecer que atividades como comer carne grelhada, usar xampu ou tomar sol são ameaças inaceitáveis. Para ela, essa confusão deturpa o debate em saúde pública e mina decisões baseadas em evidências reais.
A plateia — composta por pesquisadores, profissionais da saúde e ex-fumantes, usuários de nicotina — reagiu com silêncios pesados e aplausos contidos. Havia menos indignação que cansaço. Porque o debate já não era apenas sobre a ineficácia das políticas da OMS — era sobre o custo humano da rigidez ideológica.
O painel encerrou-se com um apelo coletivo: por uma reforma da ciência institucional, pela abertura de espaços de diálogo com consumidores e cientistas independentes, e pelo reconhecimento de uma verdade tão desconfortável quanto urgente:
A nicotina não é o inimigo. O inimigo é a combustão.
Uma mesa, mundos vizinhos
Após a dura crítica à postura da Organização Mundial da Saúde em relação à redução de danos do tabaco, o debate no GFN25 não rumou para a resignação, mas para a reconstrução. Se o problema havia sido exposto com brutal clareza, o desafio agora era compreender suas raízes e imaginar saídas viáveis. O tom, ainda crítico, começou a se deslocar — da denúncia à proposta.
O primeiro passo foi nomear o problema com precisão. Participantes voltaram a destacar as fragilidades metodológicas que marcaram revisões científicas conduzidas sob a égide da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco: seleção enviesada de fontes, omissões estratégicas e distorção deliberada de evidências para sustentar uma narrativa baseada exclusivamente na abstinência — mesmo quando os dados apontam para alternativas viáveis e menos nocivas. Alguns chegaram a afirmar que essa abordagem beira a negligência intencional.
Mas por que ela persiste?
Segundo diversos painelistas, a resposta está na combinação tóxica de inércia institucional, conveniência política e uma ortodoxia científica moralista e ultrapassada. Admitir o erro — especialmente um erro arraigado em décadas de retórica proibicionista — significaria reconhecer que vidas foram colocadas em risco para proteger uma estrutura que se retroalimenta. Em uma organização como a OMS, marcada por hierarquias rígidas e baixa tolerância à crítica externa, a possibilidade de ruptura interna é vista não como oportunidade, mas como ameaça.
A partir daí, o painel avançou rumo a propostas de reforma — não utópicas, mas estratégicas e exequíveis:
Recentrar o consumidor: compreender as práticas e preferências dos usuários reais de nicotina é essencial para qualquer análise científica que pretenda ser relevante e ética.
Valorizar dados do mundo real: incorporar evidências epidemiológicas, biomarcadores e estudos de coorte pode corrigir distorções laboratoriais e oferecer um retrato mais fiel dos riscos e benefícios relativos entre produtos.
Colocar histórias humanas no centro: a linguagem técnica deve ser acompanhada de narrativas reais — de quem parou de fumar com vape, de quem foi ignorado pelas autoridades, de quem vê na redução de danos não um conceito, mas uma linha de vida.
Reconhecer evidências da indústria regulada: ignorar pesquisas produzidas por setores que operam sob regulação sanitária é desperdiçar conhecimento — especialmente quando os dados podem ser auditados de forma independente.
Aproveitar a força do mercado: a crescente adesão dos consumidores a produtos de risco reduzido pode pressionar instituições como a OMS a abandonarem o isolamento normativo.
Colaboração intersetorial: cientistas, reguladores, indústria e usuários precisam construir um espaço de confiança crítica, onde a legitimidade do diálogo dependa não da pureza ideológica, mas da disposição para escutar.
O que emergiu, ao fim, não foi apenas um inventário de falhas — mas um mapa de possibilidades. A ciência, lembraram alguns, não avança pelo consenso, mas pela coragem de mudar de ideia diante das evidências. O desafio que a OMS tem diante de si não é trivial: reconhecer que o paradigma da abstinência não é neutro — é excludente. E que uma política de saúde pública que ignora a pluralidade das trajetórias humanas está condenada a salvar menos vidas do que poderia.
A tarde se encerrou com um chamado direto, mas sereno: a era da negação acabou — e a responsabilidade pela mudança já tem nome, rosto e está atrasada.
Um breve interlúdio de resistência
Durante o segundo dia do GFN25, quando o peso dos testemunhos já começava a repousar sobre ombros e consciências, dois momentos fugazes — quase discretos — interromperam o ritmo dos painéis. Destacaram-se como pequenos atos de insubordinação. Não estavam nos slides. Nem nos comunicados à imprensa. Estavam nos gestos.
O primeiro veio de um jovem dono de loja de vape da Indonésia que, ao final de uma sessão sobre regulamentação na Ásia, levantou-se e disse: “Eu não sou cientista. Não sou ativista. Só vendi vapes para pessoas que queriam parar de fumar. E vi, uma a uma, suas vidas mudarem.”
A tradução simultânea hesitou por um instante. Mas não fez diferença. A sala compreendeu — porque o que se falou ali foi uma linguagem mais antiga que qualquer política: a da experiência compartilhada.
O segundo momento veio fora dos auditórios. Num corredor lateral, alguém colou discretamente um cartaz escrito à mão:
“Cuidar também é desobedecer.”
Não havia logotipo, nem assinatura. Apenas a frase — e, ao redor dela, começaram a surgir pequenos bilhetes ao longo do dia: relatos anônimos de pessoas que pararam de fumar com produtos ilegais, mensagens de apoio a cientistas perseguidos, confissões de consumidores que jamais foram ouvidos.
Esse breve interlúdio não constava na programação oficial. Mas, como tantas vezes acontece, foi nesse instante que o espírito do fórum se revelou. Porque resistir, naquele espaço, não era apenas falar — era continuar falando, mesmo quando já não há lugar para se ser escutado.
O segundo dia do GFN25 não terminou com respostas. Terminou com perguntas. E talvez esse tenha sido seu gesto mais radical: num mundo saturado de certezas impostas, abrir espaço para a dúvida já é um ato de resistência. Pelos corredores, ecoava uma intuição desconfortável: atrás dos gráficos e estatísticas, há intenções; por trás das regulações, há escolhas; e atrás de muitas proibições, há o medo de perder o controle sobre corpos que ousam escolher de forma diferente.
Entre a primeira intervenção da manhã e o painel final da tarde, o que se desenrolou foi um esforço coletivo de devolver complexidade ao debate — não como fuga, mas como responsabilidade. Porque falar de nicotina é, em última instância, falar de liberdade: a liberdade de respirar, de decidir, de viver melhor. E quando isso se torna controverso, talvez seja o próprio conceito de saúde pública que precise ser resgatado.
Foi assim que terminou o segundo dia: com a convicção de que a verdade científica precisa não apenas ser dita, mas traduzida. Não para ser domesticada — mas para ser compreendida onde realmente importa: nos corpos que ainda fumam, nos rostos que ninguém consulta, nos países onde o silêncio custa vidas.
Amanhã, o GFN25 acordaria com essa tarefa: ir além da denúncia — e finalmente imaginar o futuro.
Entre o cansaço e o que vem depois
Havia algo diferente no terceiro dia do GFN25. Talvez fosse o cansaço — não aquele que se instala nos músculos, mas o que pesa na consciência depois de tantas horas de intervenções densas, estatísticas cruas, confrontos e confissões. Mas havia também outro tipo de energia — mais silenciosa, mais profunda. Não era euforia. Era a força serena de quem sabe que está certo e que, enfim, sabe que não está só.
Esse dia não começou com uma grande conferência de encerramento. Começou com vozes pequenas — mas transbordando verdade. Consumidores. Comerciantes. Jovens médicos. Especialistas que, fora dos painéis oficiais, compartilharam suas histórias nos corredores, nos cantos dos cafés, ou nos momentos de microfone aberto. Um tipo de conhecimento que não nasce em laboratórios nem em revistas indexadas, mas que brota de corpos que sofrem e sobrevivem. Histórias de fumaça e resistência. Dor transformada em argumento, dados que sangram.
Mais do que um dia de encerramento, parecia um rito de transmissão: o instante em que o conhecimento técnico se funde à experiência vivida — e cada testemunho se torna, à sua maneira, uma forma de ciência. Não a ciência do experimento controlado, mas a ciência do impacto real. Porque, na saúde pública — como se repetiu tantas vezes ao longo do GFN — não existe neutralidade: ou uma vida é salva — ou uma oportunidade é perdida.
Ouvir como Tecnologia do Futuro: E foi justamente desse cansaço — não paralisante, mas maturado — que emergiu um novo tipo de escuta. Já não era o silêncio cauteloso do primeiro dia, nem o esgotamento abafado do segundo. Era o silêncio de quem sabe que precisa agir. E sabe como.
Enquanto os painéis se formavam nas salas de conferência e os intérpretes afinavam seus fones de ouvido, algo mais sutil — mas não menos decisivo — se desenrolava: a escuta havia mudado de textura. Já não era o silêncio cauteloso do primeiro dia, nem o esgotamento abafado do segundo. Era outro tipo de silêncio. Aquele que anuncia decisões. Uma forma de atenção que não espera autorização para agir, mas que observa — para construir.
Nos corredores, nas mesas de café, nos espaços improvisados onde línguas e histórias de vida se cruzavam, havia menos indignação — e mais estratégia. Como se o fórum, ao nomear feridas com tanta precisão, tivesse também despertado uma vontade comum de curá-las.
O terceiro dia do GFN25 não foi menos denso. Mas foi diferente. Abandonou a lógica da denúncia como narrativa dominante e se voltou para outra urgência: a da reconstrução. Das linguagens. Das políticas. Das alianças. Em vez de perguntar “Quem falhou?”, a pergunta pairava como uma bússola ética: “O que precisamos construir agora, para que não falhemos de novo?”
O Dia de Maria
O centro gravitacional do último dia, no entanto, tinha nome e sobrenome: Maria Papaioannoy-Duic.
Canadense, ativista, ex-fumante, mãe. Para muitos, Maria é a consciência viva do movimento global de consumidores que defendem alternativas mais seguras à combustão. Mas ela é mais do que isso. Desde as primeiras edições do GFN, sua presença não tem sido apenas a de quem defende uma causa — é a presença de quem encarna sua urgência. Maria não falou apenas com a voz. Falou com a biografia. Com o cansaço. E com a raiva lúcida de quem já perdeu demais para permanecer em silêncio.
Durante anos, Maria se posicionou não apenas como uma defensora, mas como uma portadora da urgência — alguém cujo corpo e trajetória falam mais alto do que as estatísticas e argumentos que ela sustenta. E naquele sábado, quando subiu ao palco, não fez um discurso. Fez um acerto de contas.
A partir de sua experiência vivida, Maria expôs o abismo crescente entre o que os consumidores ouvem e o que de fato sabem — entre o discurso oficial e a verdade incorporada. Contou como, no Canadá, as contradições regulatórias criaram um ambiente em que a desinformação não vem das margens, mas do centro: nasce na linguagem institucional, embalada pela autoridade das plataformas governamentais e reverberada pela narrativa dominante.
Desafiou a ideia de que a desinformação começa nas redes sociais. Ela começa nos parlamentos, nos comunicados oficiais, nos boletins de saúde pública que, intencionalmente ou não, confundem risco com perigo e abstinência com virtude.
Maria descreveu as consequências concretas dessas distorções: donos de lojas de vape multados ou processados simplesmente por informar os clientes sobre a redução de danos; produtos aprovados e depois retirados do mercado sem nova avaliação científica; ausência de campanhas de educação pública por pressão política. E, sobretudo, um sistema de saúde em que o caminho para parar de fumar é mais regulamentado — e mais estigmatizado — do que o cigarro em si.
Ela não apontou nomes, mas nomeou o padrão: aquele em que a política é moldada menos pela ciência do que pelo controle da narrativa, onde o desconforto com a complexidade leva a proibições genéricas que não servem à saúde — nem à equidade.
Seu tom não era acusatório por vaidade — era defensivo da verdade conquistada nas trincheiras cotidianas. Em um momento, destacou que dezenas de milhares de canadenses continuam morrendo por causa do cigarro a cada ano, mesmo enquanto produtos de risco reduzido seguem politicamente radioativos. O silêncio, ela sugeriu, não é ignorância. É estratégia — e é letal.
Maria encerrou não com palavras de ordem ou frases de efeito, mas com algo mais raro: um apelo por clareza moral. Por uma ciência que não tenha medo da complexidade. Por reguladores que compreendam que reter informação é também reter vida.
E naquele instante, cercada por cientistas, jornalistas e defensores da causa, a voz de Maria tornou-se a voz de tantos outros excluídos das mesas de saúde pública — não por falta de evidência, mas porque sua evidência vive nos pulmões, nas perdas, e na recusa em desaparecer.
A Plateia como Coautora
Quando o microfone, enfim, chegou à plateia após a apresentação carregada de emoção de Maria Papaioannoy-Duic, a sessão mudou de natureza. Deixou de ser uma palestra. Tornou-se um testemunho coletivo. O que se seguiu foi menos um momento de perguntas e respostas e mais um acerto de contas compartilhado — um ato comunal de memória e resistência que as estatísticas raramente capturam, mas que a experiência vivida se recusa a esquecer.
Um dos participantes, lidando com o dilema da confiança pública, lançou uma pergunta retórica, porém cortante: “E se não fosse o Dr. Konstantinos Farsalinos a trazer essa informação, mas alguém como o ‘Yanni, o Vaporizador’?
A sala compreendeu de imediato. Num universo em que a verdade disputa espaço com algoritmos, a credibilidade não é apenas conquistada — é curada, filtrada. E a especialização, por mais rigorosa que seja, ainda precisa ser traduzida diante da brutalidade desinformativa.
Vários presentes retornaram ao campo de batalha das redes sociais, onde os debates se desenrolam em rajadas de dez segundos e a nuance é penalizada pelo código da atenção. “Se formos longos e complexos, provavelmente seremos deletados”,
observou uma voz, aludindo às dificuldades de comunicar ciência na economia do clique. Outro participante lembrou com sobriedade: “Precisamos encontrar formas melhores de usar essas plataformas.”
Mas a frustração ia além. Alguém perguntou, quase em lamento: “O que fazemos quando o outro lado não quer estar aqui?”
Não se tratava apenas de ausência — mas de recusa. Aquele tipo de silêncio que fala alto porque é cuidadosamente cultivado. E essa recusa — de aparecer, de ouvir, de dialogar — é, em si, uma forma de poder.
A plateia também questionou as barreiras invisíveis que mantêm até mesmo especialistas simpáticos ao tema à margem da conversa: “A toxicidade desse debate... muita gente tem medo de ter sua reputação manchada só por ser vista num evento como esse.”
O medo é real — não da ciência, mas da associação. A redução de danos associada à nicotina tornou-se tão politicamente contaminada que, como pontuou um dos participantes, “muitas vezes ela é defendida pela direita, enquanto outras formas de redução de danos são abraçadas pela esquerda. Isso não dificulta a integração dessas estratégias aos marcos mais amplos da saúde pública?”
E então, do mesmo lugar de exclusão, surgiram ideias de inclusão. Alguém sugeriu envolver líderes religiosos nos esforços de redução de danos, especialmente durante períodos de observância como o Ramadã — onde oferecer alternativas mais seguras ao fumo poderia ser tanto cultural quanto clinicamente significativo. Outra voz defendeu mais representatividade comunitária e diversidade: a formulação de políticas públicas não pode continuar sendo um circuito fechado de especialistas e tecnocratas.
O consenso emergiu claro: se as pessoas diretamente afetadas pelo fumo não fizerem parte da solução, continuarão sendo vítimas de agendas que nunca foram suas.
No fim, não era uma plateia reagindo a uma fala. Era uma sala recusando ser passiva. Suas palavras não formaram um eco, mas uma resposta — um contraponto vivo a anos de decisões tomadas sem sua participação. E naquele espaço, mesmo que por instantes, a arquitetura da saúde pública se virou do avesso: os que sempre foram tratados como objetos de regulação reivindicaram seu lugar como coautores da conversa.
A Despedida que Apontava para a Frente
O Global Forum on Nicotine nasceu do compromisso de figuras como Gerry Stimson e Paddy Costal, que compreenderam, muito antes de isso se tornar evidente, que a redução de danos não é apenas uma estratégia de saúde — é uma ética de escuta, inclusão e resistência. Desde sua fundação, o GFN tem sido esse espaço raro onde ciência, experiência vivida e dissenso informado convivem — não sem tensões, mas com um propósito comum: salvar vidas sem sacrificar a dignidade de quem vive à margem das políticas públicas tradicionais.
Neste ano, o fórum reafirmou sua vocação: provocar o desconforto necessário para que velhas certezas sejam revistas, e para que novas perguntas possam, enfim, ser feitas. Uma das provocações centrais — “Quem mais deveria estar na sala?” — pairou como uma bússola moral sobre as mesas, os debates e os corredores. Porque falar de redução de danos, hoje, é falar de representatividade real: não apenas quem fala, mas quem é sistematicamente impedido de ser ouvido.
Ao fim do GFN25, não houve promessas retóricas nem gestos simbólicos grandiosos. O que houve foi uma certeza compartilhada: o futuro da saúde pública não será construído apenas por especialistas em políticas, mas por quem tem, no próprio corpo, as marcas das políticas que falharam.
Se a redução de danos ainda provoca resistência, é porque desafia a lógica do controle pelo medo. E justamente por isso, segue sendo uma linguagem do futuro — uma linguagem que insiste em curar onde antes só havia punição.
O Que Resta Depois do Silêncio
Quando as cadeiras são empilhadas, os corredores varridos, os crachás guardados e os estandes desmontados, o que permanece depois de um evento como o Global Forum on Nicotine não são apenas os slides, os PDFs ou os resumos executivos. O que permanece — o que insiste em ficar — é o desconforto. Um tipo específico de desconforto: aquele que nasce do contraste entre o que já se sabe e o que se finge não saber.
O GFN25 termina como começou: com perguntas. Mas agora, elas pesam mais.
Quantas mortes são necessárias para revisar uma política pública?
Quando um erro deixa de ser ignorância e passa a ser crime?
Quem tem o direito de existir dentro das categorias de “cidadão saudável” e “consumidor responsável”?
A Redução de Danos como Linguagem de Resistência
A ideia de redução de danos nunca foi confortável. E talvez seja justamente por isso que ela persiste. Porque carrega em si o desafio daqueles que recusam a lógica do abandono. Não nasceu em escritórios, mas nas ruas; não nos manuais técnicos, mas em corpos marcados pelo uso, pela exclusão e pela recusa em aceitar que a punição seja a única resposta ao risco.
Aplicada ao tabaco, a mesma inquietação se repete. A redução de danos subverte décadas de políticas baseadas na negação e na culpa. Em seu lugar, propõe algo desarmadoramente simples e profundamente humano: fumar mata; existem alternativas muito menos nocivas; negar acesso a elas é uma forma de violência política — uma violência que persiste não por ignorância acidental, mas por escolha deliberada.
No GFN25, essa verdade não ecoou em declarações bombásticas, mas no peso sutil dos testemunhos marcados por perda, persistência e lucidez. Médicos, cientistas, consumidores, políticos dissidentes e donos de lojas multados por informar — todos teceram uma rede silenciosa de resistência, feita de biografia e ciência, de luto e inquietação. Uma rede invisível à burocracia, mas inconfundível em cada história contada.
Em sua fala, Maria Papaioannoy-Duic não elevou a voz. Mas cada palavra parecia carregar a ressonância de silêncios antigos. Ela não denunciava apenas leis injustas ou decisões equivocadas — ela acusava um sistema que, mesmo conhecendo a verdade, escolhe a mentira mais conveniente. Um sistema que transforma ignorância em doutrina e a veste com os trajes da autoridade.
Para muitos naquela sala, a guerra não é contra o tabaco. É contra a ignorância institucionalizada — aquela que se expressa em discursos ministeriais bem ensaiados e em regulações que sufocam a evidência em nome de uma moral aparente.
Varsóvia como Metáfora
Não é por acaso que o GFN acontece em Varsóvia. Nada nesta cidade é incidental — cada rua, cada sombra carrega uma memória que resistiu à tentativa de apagamento. Esta é uma cidade que conhece o custo do silêncio. E talvez por isso continue sendo o único lugar onde um fórum como o GFN pode existir sem máscaras, sem o fingimento da neutralidade.
Caminhar por Varsóvia durante os dias do fórum é atravessar camadas de tempo em disputa. Guerras, tratados, pactos de obediência e de ruptura. Cada esquina sussurra sobre revoltas esmagadas e renascimentos improváveis. A cidade não esquece. E ensina — mesmo sem querer — que reconstruir exige mais do que cimento. Exige escuta.
Nesse cenário, Varsóvia não é apenas um pano de fundo. É personagem. Uma espécie de consciência arquitetônica observando os debates sobre política pública, redução de danos, liberdade e controle. Nada aqui é meramente técnico. Porque, quando se trata de nicotina, o que está em jogo não é apenas o produto — é o direito de viver sem ser tratado como um incômodo estatístico.
O GFN25 não ofereceu soluções prontas. Em uma era de fórmulas automáticas, ofereceu algo mais precioso: espaço. Espaço para perguntas que normalmente são silenciadas. Espaço para histórias que a política preferia não ouvir. Espaço para lembrar que cada vida salva ao parar de fumar não é uma abstração — é uma biografia que continua, um corpo que respira.
Em termos práticos, o fórum acendeu alianças, compromissos e esboços de planos. Representantes de países como Quênia, Filipinas e Ucrânia discutiram estratégias conjuntas para pressionar a OMS a se abrir à redução de danos. Cientistas delinearam uma coalizão internacional para pesquisa independente, livre de amarras institucionais. Consumidores esboçaram redes transnacionais de troca de informação e defesa legal.
Nada disso mudará o mundo da noite para o dia. Mas a semente foi plantada em mais um verão. E talvez a esperança, neste momento histórico, esteja justamente nesse gesto simples e radical: dar nome ao que antes era apenas número.
Nada disso mudará o mundo da noite para o dia. Mas, como lembrou Summer Hanna, com clareza e convicção: “Pode haver muitas visões sobre a melhor forma de enfrentar o tabagismo, mas é do interesse de todos fazer parte da solução… E isso só é possível por meio de diálogo aberto, uma troca científica robusta que inclua todos os pontos de vista, e colaboração para realmente acabar com o cigarro.”
E talvez a esperança, neste momento histórico, esteja precisamente aí: na recusa em abandonar a complexidade — e na insistência de que o diálogo, mesmo quando desconfortável, é o que torna o futuro possível.
E Agora?
Ao deixarem o hotel naquele sábado de junho, os participantes carregavam mais do que crachás e cadernos de anotações. Carregavam o peso de saber demais — e a responsabilidade de não permanecer em silêncio.
O GFN25 chegou ao fim, mas seus ecos continuam a reverberar. Nas pequenas lojas do Canadá, onde dizer a verdade ainda pode ser tratado como crime. Nas aldeias rurais da Índia, onde dispositivos modestos salvam vidas discretamente, longe dos holofotes. Nos corredores da OMS, onde — se ainda houver alguém realmente ouvindo — talvez já seja hora de reconhecer que a era da arrogância institucional passou.
Porque isso não se trata apenas de produtos, regulamentações ou estruturas políticas.
Trata-se de algo mais elementar, mais íntimo: o direito de não ser punido por tentar viver melhor.


